Rafael Sliks é um artista nascido em São Paulo (1981), onde cresceu observando as placas de rua pela fresta do portão de sua casa, no bairro Bela Vista. Essa influência em seu processo criativo e a forma única como utiliza a escrita de rua em sua arte é o que o torna um Street Writer reconhecido mundialmente. Seus murais e pinturas sobre tela podem ser vistos em diversos lugares do mundo, tendo participado de publicações, festivais, feiras de arte e exposições nos Estados Unidos, Ásia e Europa. Recentemente, realizou uma exposição individual no Japão e pintou um mural na empena de um edifício na metrópole onde nasceu.
Sliks é um neologismo criado pelo artista, que inverte a palavra “skills” escrita ao contrário. O termo, que em inglês significa habilidade, destreza e capacidade de realizar de forma rápida e eficaz um gesto ou objetivo consciente, está profundamente alinhado com sua prática artística. A grande manobra de Sliks é transformar a “tag” — escrita de forma rápida e ilegal nas ruas — em algo assimilável pelo público diletante e consumidor de arte. Com refinamento e domínio técnico dignos de um estudioso da escrita urbana, sua produção vem ganhando cada vez mais espaço no mundo das artes visuais.
Rafael Sliks se conecta com a técnica ancestral da pintura através do uso pragmático do óleo e, com uma ampla paleta de cores, o processo de criação de suas obras o coloca em diálogo com a história da arte. Em suas telas, a arte urbana é decomposta até se tornar uma espécie de floresta emaranhada, compondo uma fauna subjetiva onde o artista retoma o desejo dos pintores abstratos de alcançar a essência da espiritualidade. Ao desconstruir sua escrita e alcançar a abstração em busca do “nada essencial”, Sliks ressignifica a paisagem urbana, resgatando a natureza que a precedeu. É nesse ponto que ele se alinha à tradição da pintura abstrata que busca desumanizar a arte através de uma desconstrução incessante, que vai além da mera representação, convidando o espectador a co-criar a realidade imaginada pelo artista.
Uma marca de sua prática é a repetição incessante. Como um mantra, Sliks escreve e reescreve obsessivamente seu nome até entrar em transe, forçando sua caligrafia a escapar de si mesma, alcançando outro estado, que se distancia da linguagem escrita convencional. Se o grafite já é, por si só, uma forma de propor outros modos de escrever, Sliks radicaliza essa tentativa. Se a inscrição da tag já é uma transgressão, ele desenvolveu a habilidade de radicalizar essa transgressão, levando seu hábito-vício ao handstyle do grafite às últimas consequências. Rafael encara a caligrafia como um tipo de kung-fu de rua, um iogue que não se preocupa com a pintura ou a escrita em si, mas com o aprimoramento dos movimentos conscientes do corpo a cada gesto executado.
Suas obras resgatam o corpo nas artes visuais, pois funcionam como registros da sua corporalidade. Sua dinâmica se aproxima da arte contemporânea, já que a ação de aplicar repetidamente seu nome, por meio de diferentes técnicas e suportes, resulta em obras que são registros de performance. Ao vermos suas pinturas, vídeos e murais, sentimos a energia do “spray-ação” de seus movimentos corporais — os gestos do artista estão sempre explícitos, sendo esse o fio condutor de sua produção.
Em 2025, Sliks participou da 6ª edição do festival Vulica Brasil em Brasília “envelopando” o ed. Darcy Ribeiro, no Conic, com a obra de arte “Tags”.